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Nobel de Química 2016 defende foco de pequisa em ciência básica

18 de julho de 2017

Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP – Ao posar para a foto, o escocês naturalizado americano Sir James Fraser Stoddart, Prêmio Nobel de Química 2016, pergunta aos fotógrafos se precisa fazer cara de Sean Connery. Diferente do conterrâneo, Stoddart ainda está se acostumando com a vida de celebridade que de certa forma tem levado.

Em visita ao Brasil, para o 46º Congresso Mundial de Química da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC 2017), o Prêmio Nobel deu entrevistas e mais de 100 autógrafos. No fim do dia estava cansado e também extremamente emocionado. “Nunca fui tão bem recebido como aqui no Brasil”, disse.

Stoddart dividiu o Prêmio Nobel de Química 2016 com Jean-Pierre Sauvage e Bernard L. Feringa pela concepção e produção de máquinas moleculares, ou nanomáquinas, um avanço que abriu o caminho para os primeiros materiais inteligentes do mundo.

De acordo com o comitê do Nobel, o trio desenvolveu “as menores máquinas do mundo”. A tecnologia já está sendo usada para criar micro robôs e materiais que se auto reparam sem a necessidade de intervenção humana.

Em organismos vivos, as células executam funções com regulação de temperatura e reparação de dano assim como as máquinas moleculares. O que o trio conseguiu fazer foi replicar esse tipo de função em moléculas sintéticas, que convertem energia química em movimento mecânico, podendo assim executar várias funções.

As aplicações são inúmeras e podem levar a novas práticas na medicina e em tecnologia da informação. Ou como diz Stoddart: “O Nobel de Química 2016 foi para uma descoberta de ciência básica a partir de um desenvolvimento básico. Mas você sabe que toda máquina inventada até agora levou a uma mudança incrível em nossas vidas”.

Ele é um defensor ferrenho da pesquisa básica. “Os jovens precisam encontrar problemas difíceis e então solucioná-los, sem se preocupar com a aplicação.” Após ser laureado, Stoddart está criando uma startup de mineração de ouro: a partir das máquinas moleculares será possível separar o ouro sem o uso de contaminantes e de modo muito mais econômico.

Enquanto isso, Stoddart viaja o mundo para dar palestras e se integrar com pesquisadores mais jovens. No dia da premiação do Nobel, na Suécia, filhas, netos e genros foram à cerimônia e fizeram uma espécie de cobertura ao vivo pelo Twitter, com várias fotos da viagem em família.

Em um dos tweets, uma das filhas legendou a foto de Stoddart em traje de gala escocês e com o celular na mão. “Na véspera de sua palestra @NobelPrize, @sirfrasersays está viciado no ‘twitter’”, tuitou. E de fato ele está encantado com a ferramenta que descobriu há poucos meses. “É uma maneira muito boa de alcançar várias pessoas, principalmente as mais novas, e quem sabe uma forma de inspirá-las. Sei que mudanças são as únicas formas de sobreviver”, disse.

Leia abaixo a entrevista que o Nobel de Química 2016 concedeu à Agência FAPESP:

Agência FAPESP  Como a vida do senhor mudou desde que venceu o Prêmio Nobel no ano passado?
James Fraser Stoddart – É uma mudança e tanto desde quando o telefone tocou e eu fui acordado às 4 horas da manhã em Chicago (EUA). Eu dormia profundamente e talvez não estivesse preparado para receber a notícia. Precisei de 10 minutos para me dar conta do que estava acontecendo. A partir daí houve um ataque natural e imediato da mídia. Dei várias entrevistas. Continuo tentando desenvolver uma maneira de lidar com tudo isso. Ter o status de celebridade aos 74 anos de idade, sendo que eu não fui treinado para isso… Eu me compadeço, mas não gostaria de fazer isso por toda a vida.

Agência FAPESP  Como as máquinas moleculares podem transformar o mundo?
Stoddart  Elas vão desempenhar seu papel na considerável revolução tecnoindustrial que teremos nas próximas décadas. Foi uma descoberta básica a partir de um desenvolvimento de pesquisa básica. Mas você sabe que toda máquina inventada até hoje levou a uma mudança incrível em nossas vidas: da máquina a vapor para motor elétrico e para o motor de combustão interna. Já pensou em tudo o que aconteceu no desenvolvimento subsequente dessas máquinas? Por isso, começo a achar que com as máquinas moleculares estaremos em um caminho espetacular nas próximas décadas.

Agência FAPESP  E nesse caso quais são as aplicações?
Stoddart  Elas têm várias aplicações que levarão a novas práticas em saúde médica e a novos desenvolvimentos em tecnologia da informação. É difícil pensar em detalhes no momento, mas as aplicações são enormes. Eu estou apaixonado com um projeto que pode revolucionar a mineração de ouro. Com uma equipe de pesquisadores da Northwestern University, em Chicago, criamos uma startup que está testando método de separação do ouro na mineração com o uso de máquinas moleculares. É uma maneira muito mais barata e ecológica de fazer isso, que não contamina a natureza, nem as pessoas que trabalham em mineração. Estou muito animado de poder ajudar meus alunos e ver como uma pesquisa que ganhou o Nobel possa ser usada nos dias de hoje.

Agência FAPESP  Qual foi a sua motivação para fazer pesquisa?
Stoddart  A minha motivação foi algo que eu desenvolvi ao longo de toda a minha vida. Em relação a máquinas moleculares, é tudo sobre o movimento, o que chamamos de dinâmica, e é assim que conduzimos a maneira de projetar e operar. Para explicar melhor, eu preciso fazer um pequeno retrospecto. Eu morei em uma fazenda quando era garoto que deve ter tido eletricidade só quando eu já estava com uns 17 anos. E eu acho que nessa época eu ficava sonhando em algo útil no mundo. Então optei pela Ciência. Fui para Edimburgo e fui abençoado por ter na escola professores excelentes que poderiam muito bem ser de universidades. Naquela época eu não percebia isso tudo, mas foi um grande começo. E talvez essa seja a raiz do meu sucesso como cientista. Mas, em retrospectiva, tive muita sorte também de ir para a Universidade de Edimburgo. Talvez o ensino não tenha sido tão bom quanto poderia ter sido naquela época. Mas às vezes não ter o devido treinamento formal e ter outros em outras áreas te deixa sem deficiências. E você percebe que se você tem essas deficiências, precisa ser mais criativo para ir para frente. Às vezes, não é que não se esteja andando nos trilhos, não se está andando nos mesmos trilhos que a maioria das pessoas estão. Você está em trilhos diferentes.

Agência FAPESP  Nesta época o senhor contou com algum conselho importante?
Stoddart – Sim. Quando eu fui para o Canadá, no fim do meu PhD. Era uma época que estava precisando pensar fora da caixa e procurar coisas diferentes para fazer. Foi quando o meu professor em Edimburgo me deu um conselho muito bom: “ O que quer que você faça comece tentando encontrar um grande problema”. E eu tive essa ideia de estudar que resultou nas nanomáquinas. Foi um problema que começou a vagar pela minha cabeça enquanto eu lia cansado na biblioteca. E novamente fui abençoado quando meu orientador de pós-doutorado, depois de nove meses da minha chegada ao Canadá, disse que estava indo para o Brasil.

Agência FAPESP  Para o Brasil?
Stoddart  Pois é. Para o Brasil, para Curitiba mais precisamente, passar um ano. Naquela época, em 1972, não havia e-mail e serviços postais rápidos, nem telefone era fácil. E então eu acabei ficando livre para explorar minhas próprias ideias, do jeito que eu estava acostumado a fazer na fazenda do meu pai quando era criança. Meu orientador gostou muito daquilo e eu cheguei até a visitar o Brasil naquela época, pela primeira vez.

Agência FAPESP  Em sua opinião, que área da química pode representar uma nova era? Que conselhos daria para cientistas mais jovens?
Stoddart  Bom, se eu soubesse qual será a nova fronteira a atravessar na química, certamente não estaria sentado aqui fazendo palestras e dando entrevistas. Estaria no laboratório, pesquisando com meus alunos. Eu costumo sempre dizer para os meus alunos: você não deve voltar para o seu país ou ir para outro país e praticar a mesma química que praticou durante o seu PhD. Se fizer isso, tudo o que vai conseguir é elevar o status de seus mentores. O que digo é que eles devem encontrar uma área de pesquisa que seja muito diferente, de forma que, se houver progresso substancial, o nome do pesquisador e do laboratório estarão associados a esse progresso. Digo também que eles não devem pensar em ganhar um Prêmio Nobel. Isso é meio louco porque em química há apenas 175 desde 1901. Pode ou não acontecer. Esse não é um sonho valioso, mas acho que ser um cientista de sucesso, sim. É preciso ser capaz, de uma forma ou de outra, de encontrar algo que não seja muito popular até o momento em que você entra em campo.

Agência FAPESP  Foi isso que o senhor fez durante a vida acadêmica?
Stoddart – Eu tive sorte de que havia um vislumbre da “ligação mecânica”; o nome tinha sido cunhado em 1953 e praticamente nenhum progresso estava sendo feito. Era ainda uma série de experiências malsucedidas que, na melhor das hipóteses, tiveram um vislumbre de sucesso. Mas eu comecei a ver possibilidades ali. E quando o experimento funciona de uma maneira muito convincente, apontando para uma ruptura ou para uma grande descoberta, todos ficam muito motivados. E isso dá um enorme prazer. Lembro que, no início dos anos 1990 já era tarde da noite quando o grupo apresentou 79 ideias que poderíamos implementar com base nessa descoberta. E é incrível como os jovens inteligentes de todo o mundo, e todos são muito semelhantes nisso, se engajaram na busca do conhecimento. Em termos de ciência básica, acho que os alunos mais brilhantes se adaptam melhor a isso do que ao espectro de uma aplicação.

Agência FAPESP – Mas parece que a preocupação é sempre maior com a aplicação, não?
Stoddart  Acho que isso tem mudado um pouco nos últimos anos, pois eles têm sido bombardeados pela mídia em termos de aplicações, aplicações, aplicações. Alguns cientistas acabam sendo sensibilizados por isso. Mas eu vejo que os melhores estudantes que vieram para o meu grupo não chegam pensando em aplicação, mas em fazer pesquisas fundamentais – porque eles simplesmente gostam de fazer – e encontrar soluções para problemas muito difíceis. E isso basta para que acordem às 7 da manhã e fiquem até tarde com seus estudos.

Agência FAPESP  O senhor já fez críticas a Donald Trump. Como a ciência deve mudar com essa nova configuração no mundo?
Stoddart  Provavelmente as mudanças nunca foram tão rápidas como agora. Parece-me que muitas das antigas e nem tão antigas democracias estão passando por problemas. E isso é uma oportunidade para outros países em termos de liderança. Existem pessoas muito talentosas e é apenas uma questão de organização para elas poderem mostrar toda a sua criatividade. Mas quem sabe o que pode acontecer? Eu estou preocupado com o meu antigo país, o Reino Unido, estou preocupado porque me engajei no movimento de trazer pessoas de outras partes do mundo e na criação desta Europa Continental. Quando eu deixei o Reino Unido e me mudei para o Canadá primeiro, meu grupo era de 65% não britânicos e era incrível. Todos se beneficiavam. O movimento do Brexit é de partir o coração porque não é ruim apenas para a ciência e para a tecnologia. É ruim para as finanças, é ruim para o comércio, é ruim para o chamado Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido, que é muito dependente de pessoas vindas de outros países para mantê-lo. É ruim para os agricultores que dependem de pessoas para vir e pegar frutos no verão, ou seja o que for. Quando você olha para isso, é um desastre completo. Não dá para acreditar que políticos orquestraram isso. Quanto aos Estados Unidos, acredito que o fenômeno é outro e não estou tão preocupado. Acho que pode ser revertido. Acredito que seja algo provavelmente temporário. Bom, mas passando ou não, nunca mais voltaremos para onde estávamos.

Agência FAPESP  O senhor está se tornando um sucesso no Twitter. Por que decidiu entrar na rede social?
Stoddart  Sim. Estou gostando muito. É uma maneira muito boa de alcançar várias pessoas, principalmente as mais novas. E, quem sabe, uma forma de inspirá-las. Também sei que mudanças são as únicas formas de sobrevivermos. E vejo que com o Twitter posso escrever sobre estes anos da minha vida depois de ganhar o prêmio Nobel. Já pensei tantas vezes em escrever uma espécie de diário, mas nunca deu certo. Sempre acabava perdendo os textos. Foi sugestão do editor da Nature, um grande amigo meu, que mora a alguns quilômetros da casa da minha filha na Inglaterra. No Twitter, falo também de coisas cotidianas como as palestras que faço e assisto, ou de fatos mais corriqueiros como a primeira classe do avião cheia de muros entre as poltronas. É mais ou menos como a vida na Inglaterra cheia de grades e muros. E as pessoas gostaram, comentaram.

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